Um conjunto de idéias de uma mulher bem estranha!


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Diálogo de uma noite seca


-Quero.
-Não posso.
-Por quê?
-Não tem.
-Cadê?
-Sumiu.
-Por quê?
-Egoísmo.
-Seu?
-Meu? Não. Seu.
-Não sou.
-Sim, você é.
-Vou dormir.
-Boa noite.
-Apague a luz.
-Estou lendo.
-Não consigo dormir.
-Leia.
-Quero de novo.
-Não posso.
-Por quê?

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A Gênese


Eu tinha uma melhor amiga. Vamos chamá-la de Clarissa, pois sempre gostei desse nome e quero muito preservar a imagem de minha amiga, hoje casada e mãe de dois filhos lindos.

Quando nos conhecemos, nossas vidas eram cheias de ‘nada’. Não fazíamos absolutamente nada naquela época. O maior feito foi ter passado no ‘vestibulinho’ da escola técnica de secretariado. Não tínhamos namorados, vida social, amigos e viagens. Ela era fã de Vanilla Ice e eu, de New Kids On The Block. Não tínhamos Nike Air Rosa Choque, o que nos excluiu de todas as atividades extracurriculares. Não depilávamos o buço e não tirávamos sobrancelha. O único menino que ficou a fim da gente (isso mesmo, da gente) tinha cara de porquinho. Ah, santa adolescência.

Certo dia, esse nada se transformou em algo. Em algo importante. Muito importante. Fui pra casa dela fazer trabalho de escola, estávamos batendo ele à máquina (de escrever, lembram?) e preocupadas com nossos ‘frufrus’ verde-fluorescente da Pakalolo. Naquela época a Elke Maravilha tinha um programa de entrevistas a tarde no SBT. E nessa tarde, ela entrevistou uma figurinha muito estranha, mas que nos deixou boquiabertas e com os olhos vidrados. O nome da entrevistada era Dimmy Kier, uma das primeiras Drag Queens brasileiras. Ela estava lá pra explicar pras donas de casa o que era aquilo, a diferença entre elas e as transformistas do Show de Calouros, etc. Algo aconteceu dentro de nós, e ficamos histéricas.

Passamos a procurar tudo que se relacionasse ao mundo das Drag Queens. Jornais, revistas, TV. E descobrimos um lugar chamado Massivo. E ficamos correndo atrás de amigos gays pra nos levarem as boates para vermos as Drag Queens. Assistíamos Na Cama com Madonna sonhando em estar no meio deles. Descobrimos a House Music, Drag Music, e mais um monte de coisa que grita. Re-descobrimos Madonna.

Até ir pra uma balada gay, eu tinha beijado uns 2 meninos. Já estava indo pra Faculdade de Letras, e a vida emocional não andava. Nesse momento da minha vida, eu já conhecia uma meia dúzia de pessoas do meio, e fui levada pra antiga Nation na Praça Roosevelt. Naquela noite, uns 3 caras bem alegrinhos me tascaram beijos na boca. Voltei pra casa feliz por não ter sido chamada de ‘Arigatô, Sayonará’ a noite toda, coisa que sempre acontece em baladas heterossexuais. Lá na Nation eu não era uma estranha. Eu era exótica, e essas pessoas adoram ‘as exóticas’. Eu poderia me vestir do jeito que quisesse, dançar como bem entendesse, beijar todo mundo sem medo, e ainda correr o risco de apanhar de skin-heads – violentíssimos no começo dos anos 90. Mas, acreditem, tinha gente que achava fino apanhar de skin heads!

A partir daí, freqüentei muitos inferninhos, muitas casas noturnas de bichas classe-média alta, bares, botecos, raves, etc. Fiquei amiga de todas as Drag Queens mais famosas, era promoter da Loca e do Massivo, fazia festa na Gent’s. Até que conheci meu primeiro namorado em uma dessas baladas, e fugimos pra Nova York. Minha família contrariou o namoro, por motivos bem óbvios.

E assim, hoje relembrei de todo o trajeto. Porque acordei me perguntando: Por que sou assim?

Sou assim porque desde 1993 eu vivo num mundo cor-de-rosa, muito divertido, entorpecido, esfumaçado, animado, ácido e que cheira Cândida com Pinho Sol. Um mundo paralelo a tudo que as pessoas conhecem de mim. Um mundo que, não adianta onde estiver, estará dentro de mim. Tendências? Karmas? Darmas? Ainda busco respostas. Ainda sofro um pouco a solidão de uma mulher heterossexual de 32 anos e solteira que nunca sai pra flertar, paquerar ou pegar. Só sai pra rir e dançar. O que no final das contas, não deixa de ser bom pra minha alma.

Mas o corpo também precisa.

Eterno conflito.

Minha melhor amiga resolveu o conflito dela. Parou de sair pra lugares GLS aos 23 anos, se casou e tem uma família estruturada.

Será que é tarde demais pra mim?

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Ser Geminiana





É ser intelectual, superficial, adaptável, e ao contrário do que todos dizem, não tem dupla personalidade, tem sim uma flexibilidade muito grande de pensamentos e atitudes... Ao mesmo tempo em que quero aquele apartamento lindo na Av. Paulista, com uma sacada enorme com paredes brancas e móveis pretos, eu penso em passar o resto da minha vida num apartamento minúsculo na Amaral Gurgel, com vista pro minhocão. Ao mesmo tempo em que sonho com uma vida estável, ao lado de uma pessoa tranqüila, sem vida agitada, e passando todas as noites planejando quanto dinheiro vamos ter que ajuntar pra ter um filho, eu sonho em ter alguém tão louco como eu, de vida intelectual agitada, sem planos pra filhos ou casamento... Alguém que entendesse todos os meus problemas, que não cobrasse fidelidade, e sim cumplicidade... Que ao invés de pedir satisfação de onde e com quem estou, pedisse pra me satisfazer naquele fim de domingo chato e cinzento... Felizmente sou decidida na minha indecisão, afinal por enquanto sou feliz assim, sem saber o que quero exatamente, mas vivendo intensamente... E tenho certeza de que, quando tudo acabar, seja um final feliz ou não, vou ter orgulho de dizer que eu fiz tudo que achei que me fizesse bem, mesmo não tendo sido tão bom assim... Foi do meu jeito.

TUDO AO MESMO TEMPO AGORA

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Uma carta de amor


Eu te odeio. Mas eu te odeio tanto, tanto, que esse ódio não me deixa. E a cada nova experiência amorosa que vivo, esse ódio aumenta. E mais, e mais.

Eu te odeio por você ter sido o melhor namorado pra mim. Eu te odeio por você ainda ser meu melhor amigo. Eu odeio o seu jeito de dançar, de beijar, de fazer amor. Eu odeio me lembrar da forma com que você me olhava de manhã, quando acordava e fazia uma piada. De como você me fazia cócegas só pra me ver nervosa. De como você adorava cozinhar seus risotos de pêra. Odeio o seu cheiro no meu travesseiro, o seu cheiro encravado na minha pele. Simplesmente odeio saber o que é cinema, enquadramento, atuação, direção, fotografia, trilha sonora, Truffaut, Bergman, Fassbinder, Bertolucci. Pois até te conhecer, Titanic, Matrix e Cidade dos Anjos eram as melhores coisas que tinha visto. Eu odeio me lembrar do seu jeito lindo quando tocava na Loca com seus fones de ouvido e seu sorriso cansado. Até mesmo Madonna não é a mesma. Ela era erótica, e pronto. Ela era pop, e só. Não... Depois de você, Madonna é uma mulher complicada e cheia de influências de arte pura. Barbra Streisand cantava bem antes de conhecer Daisy Martey.

Era simples. Minha vida era simples. E você veio pra dificultar.

Eu te odeio. Odeio porque eu acreditava no amor. Naquele mais simples, sexualmente submisso e manipulativo. Você me convenceu que era melhor não sonhar com uma casa de cercas brancas e sofás cor de marfim. Que isso era a representação mais hipócrita da classe média. Eu acreditava nas instituições, no PSDB, no Criança Esperança e na Rede Globo. Sim, eu tinha fé em coisas fáceis. Em coisas que todo mundo têm fé.

Por que você me ensinou História da Arte? Por que você me ensinou Historia do Cinema? Por que discutimos filosofia por tantos anos? Não queria saber o que é epistemologia e alter-ego.

Eu não sabia e era feliz.

Odeio passar por lugares onde sentamos por tardes inteiras roteirizando a vida das pessoas que passavam por nós. Odeio reler os roteiros que fizemos pros filmes que nunca produzimos, pras sketches que nunca apresentamos e pros vídeo clipes que nunca foram ao ar.

Odeio-te mais ainda por você ter me amado e me admirado. Sem jogos, sem simulações, sem mentiras brancas, sem esconder o passado, sem hipocrisia. Por você ter visto coisas belas por debaixo da minha capa de gordura. Por você me amar mesmo sabendo quantas calcinhas minhas estão furadas, e fazer piada de todas. Por você ter me provado o quanto eu merecia as noites de luxúria nos hotéis baratos da Rego Freitas e nos bares engordurados da Vieira de Carvalho. O quanto eu merecia conhecer pessoas de verdade, e que só nesses lugares as encontramos. O quanto precisava tratar pedintes, atendentes, moradores de rua, travestis, michês e putas, como se estivesse tratando comigo mesma. O quanto é importante enxergar o próximo que realmente precisa da minha atenção. Era tudo mais simples e menos sofredor quando eu os ignorava e tinha medo deles.Tudo.

Odeio-te por ter me deixado sozinha, com tudo isso dentro de mim. Odeio como isso virou motivo de fuga pra todos os homens que encontro. E eu odeio ter que te dizer tudo isso aqui, nesse email. Odeio a falta de coragem de ter te dito isso olhando em seus olhos, pois odeio seus olhos críticos.

Odeio você por você se odiar tanto. Tanto a ponto de achar que não merecia meu amor.

Odeio nosso amor pelo ódio.

Amo nosso ódio pelo amor.

E me odeio mais ainda por não ter entendido direito o que era seu ódio. Que não tinha nada a ver comigo, que você nunca havia me odiado.

Você só odiava o meu amor por você. Que era pequeno, egoísta, orgulhoso e vaidoso. E você, que havia me oferecido um relacionamento verdadeiro, acabou conhecendo alguém que só amava o amor que sentia por você. E nunca havia amado você de verdade. Não como você me amou. E eu me odeio por isso. Muito mais do que você.

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A Luz (ou a falta dela)


Hoje é domingo, ainda não almocei e estou a mais ou menos duas horas olhando pro nada esperando a luz voltar. Estava feliz e contende assistido um filme do Fellini (como alguém consegue ser feliz vendo isso?) quando tudo ao meu redor sofreu um ‘shut-down’. Meu computador que estava baixando músicas, meu celular que havia acabado de colocar na tomada pra recarregar a bateria, o DVD, a TV e o ventilador.
‘Ok, eu sobrevivo’, pensei. Sentei na cama, resolvi fazer as unhas. Mas como fazer as unhas sem música? Sim, eu tenho trilha sonora pra tudo. Não dá. Resolvi limpar minhas sobrancelhas. Ai eu lembrei que não dá também. Eu preciso da luz do meu abajur ‘ultra-mega-paunocu’ potente. Resolvi ler alguma coisa. Mas o livro que estou lendo me faz chorar. Não quero chorar sem ter como ligar pro Guto ou pro Mike pra chorarem comigo, ou pelo menos pra me chamarem de idiota e me fazerem rir um pouco.
O que fazer? O que fazer? Ai, meu Deus... O que fazer?

Comecei a escrever esse texto a mão, coisa que não faço desde que comprei meu PC. Estranho, escrevi apenas o parágrafo de introdução e já enchi uma folha inteira. Aí me sinto prolixa, enchendo lingüiça, e tento ser breve. Como assim? Não, não sou uma pessoa breve. Mas também não sou prolixa. Escrever meus textos a mão é ‘weird’ hoje em dia.

Já tentei descer pra conversar com minha mãe. Não rolou assunto. Já tentei conversar com meu pai, mas ele está dormindo na poltrona, claro, esperando a luz voltar.
Não quero almoçar, porque acordei meio tarde e tomei um bom café da manhã.
Não quero ficar deitada na cama olhando pro teto, porque aí só vou pensar em sexo.
Não quero arrumar minha agenda, porque senão vou começar a pensar no trabalho. Poxa, hoje é domingo, e eu só queria emburrecer um pouco na frente da TV.
Não quero sair pra caminhar. Afinal, se eu preciso de trilha sonora pra defecar, que dirá pra andar por duas horas? Morreria de tédio de mim mesma, pegaria um táxi no meio do caminho e voltaria pra casa um pouco mais pobre.
Conclusão, eu não tenho o que fazer senão esperar pela luz.

Saramago, em seu brilhante Ensaio Sobre a Cegueira, tirou a visão de todos pra ver o que sobrava.
A Eletropaulo tirou minha luz, e não sobrou nada. Apenas uma pessoa entediada, atordoada, se debatendo, sem saber o que fazer. A Eletropaulo me fez chegar a uma conclusão que me deu medo: ‘não sei lidar comigo mesma’. Preciso de alguma coisa externa, sempre, de preferência movida à eletricidade.

Porque dentro de mim está escuro e não há nada.

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Ópio


Muita gente não entende esse meu fanatismo. Sou capaz de passar horas falando do impedimento mal dado pelo juiz numa partida de futebol. Sou capaz de falar mais algumas horas sobre as injustiças e surpresas de um treino de classificação na F1. Que sou capaz de escalar o time do SPFC de 1992.

Já me perguntaram se tenho desvios sexuais, se não tenho nada melhor pra fazer ou se tive problemas na infância.

Não, não sou lésbica. Tenho muito que fazer, ler, escrever, assistir e ouvir. Não tive problemas na infância, que foi pobre e limitada, mas com muito amor e uma boa educação.

Há algumas semanas atrás, um amigo meu me disse: ‘Não entendo você. Uma hora falando do último filme de Lars Von Trier, e no minuto seguinte, chamando o juiz de cuzão só porque ele mandou voltar um pênalti que o Rogério defendeu!’. Eu fiz minha famosa cara de ‘temaki skin’ e respondi: ‘Um dia eu escrevo sobre isso. Espera. ’

Amar o seu time, a sua equipe da F1, o seu piloto, o seu goleiro, é conseqüência direta de suas escolhas.
Fiz poucas escolhas boas e muitas, milhares de escolhas ruins.
Você sabe o que é sentir-se orgulhoso andando com aquela roupa que você escolheu? Sabe aquela sensação maravilhosa de ter escolhido a pessoa certa pra sua vida? Aquele sorrisinho que sai quando você percebe que escolheu o trabalho certo? Quando você vê sua turma de amigos falando de coisas que você ama falar? Bebendo o que você ama beber?

A eterna vaidade e o orgulho das escolhas.

Infelizmente, nem todos podem responder positivamente minhas perguntas acima. Eu sempre acho que não escolhi a roupa certa, o homem certo, a manicure certa, a dieta certa. Eu adoraria ganhar dinheiro apenas escrevendo. Pesquisando e escrevendo. Lendo e escrevendo. Sim, minhas escolhas são meia boca.

E as certas?
Bom, tenho certo dom pra escolher bons livros. Escolhi sim, minha família. Escolhi a doutrina espírita. Escolhi ser fã de Madonna. Escolhi ser são paulina, torcer pela Ferrari e pelo Massa.
Sofri ao sermos eliminados na Libertadores. Chorei ao saber que Massa não correria mais nesse ano. Faço greve de fome quando perdemos clássicos.

Pra quê tudo isso, minha filha?
Porque quero continuar acreditando que fiz escolhas boas. Poucas e boas. A felicidade que sinto ao ver meu time levantando uma taça de campeão, ou de ouvir a música cafona do Senna quando algum piloto brasileiro ganha uma corrida é tão grande, tão grande, que acabo me esquecendo de todas as más escolhas que só me causaram dor e baixa auto-estima. Me esqueço que esse mundo é cruel. É minha droga, meu ópio.

É bater no peito e gritar pra quem quiser ouvir: ‘Puta que o pariu, é o melhor goleiro do Brasil!’ e achar que isso vai resolver todos meus problemas e pagar todas as minhas dívidas.

É pensar que não consigo escolher o homem certo, a dieta certa, o ALLSTAR certo, a bolsa certa, o trabalho certo, a depiladora certa... Mas meu time está lá, correndo em campo pra tentar me alegrar um pouco. Meu piloto está voltando pra me fazer um pouco mais feliz numa melancólica manhã de domingo.

E eles não precisam nem me ligar no dia seguinte pra me fazer sorrir e achar que a vida vale à pena.

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Qual será o problema comigo?


Fico horas e horas pensando nisso, todos os dias. Como sou usuária compulsiva do transporte público, tenho pelo menos 5 horas por dia pra pensar. E, meu lado narcisista só me faz pensar em mim mesma. O tempo todo.
Alguns dias atrás eu finalizei um texto (ainda não publicado) sobre a necessidade da castidade temporária (a minha já dura algum tempo). E foi o blá blá blá mais legal dos últimos meses. Texto bom, consistente, engraçado e de certa forma, politicamente correto. Só estava esperando entrar no ‘mood’ pra publicá-lo.

Sim, tenho problemas. Eu mudo de opinião. E muito rápido. Hoje, quero sexo. Ontem, dormi pensando em sexo. Amanhã, vou acordar pensando em sexo. E o pior de tudo, não quero mais só pensar. Quero fazer. E aí vêm as perguntas: Com quem? Onde? Quando?

Alguns dias atrás eu reencontrei um amigo de uma amiga, 10 anos mais novo do que eu. Gracinha, gracinha. Inteligente, cinéfilo, bom gosto musical. E com bastante experiência de vida, mais do que muitos na sua idade. E nesse momento de ambientes ‘you won’t get lung cancer because of me’, ele me fez companhia enquanto degustava meu arquiinimigo ‘cancer stick’. E o beijo foi inevitável. E as mãos, e as coxas, e a barba.
Como estávamos na rua, embaixo de um poste de luz, fiquei extremamente encabulada pela situação. Morei tanto tempo sozinha, que nunca mais havia beijado alguém em público. Quanto mais trocado carinhos animadíssimos em frente de alguém. A falta de prática me fez dizer duas frases: ‘Estou com vergonha’, e logo em seguida: ‘se eu morasse sozinha te levaria pra minha casa’. E ele, gracinha que é, me respondeu: ‘não faltarão oportunidades’. Me acompanhou até o metrô, me beijou de novo e foi pro cinema. E eu voltei pra casa com aquele geladinho gostosinho no estômago.

Ao acordar no dia seguinte, feliz com pelo menos duas das perguntas respondidas: ‘sim, sexo com o amigo-gracinha será bom’ e ‘acho que um hotelzinho na Augusta resolve’. ‘Quando?’ virou uma pergunta que não depende de mim. Se dependesse só de mim, seria hoje mesmo. Hoje, por que não sei se daqui a um mês eu ainda vou estar com essa mesma opinião. Não quero ser neurótica a ponto de ter medo disso. O geladinho gostosinho ainda continua, e continuo acordando todos os dias com ‘aquela baita vontade de ficar com alguém que me faça ter vontade de rir e ficar pelada’. Afinal, o intuito de uma castidade temporária sempre foi essa, não foi? Sentir de novo esse friozinho na barriga, lembrar-se do beijo no dia seguinte, e no seguinte e no seguinte. Ficar sem sexo não é punição. É pra recordar do quanto isso ainda é importante e mágico. Que aquele sentimento mecânico de ‘eu sou foda trepando, ninguém me supera’ fique pra trás, e deixar aquela cara de besta pós-coito aparecer de novo.


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